FRAGATA DE MORAIS
Segunda-feira, 15 de Abril de 2013
Quinta-feira, 1 de Novembro de 2012
A SEIVA -CONTOS ANGOLANOS
O PADRE
Com aquela mania de sempre andar com
um pequeno canivete nas mãos, usado para cortar as cabeças dos sardões menos
lestos, ficara apodado de Zé Canivete. Não que fosse congenitamente maldoso,
todavia o mato, a natureza, com suas leis inexoráveis, desenvolvia em nós
crianças rurais, sensações e actos que se integravam plenamente na sua essência
e manifestações.
Que diferença haveria entre um
Louva-a-Deus a triturar em suas poderosas mandíbulas verdes uma cigarra,
trinando angústia estrídula no despedir da vida, e o Zeca Canivete a agarrar o
sardão para o decapitar a fim de que pudéssemos observar, com eterno pasmo e
expectativa, o seu corpo estrebuchar?
O que poderá parecer insensibilidade,
talvez sadismo precoce, era o exteriorizar das leis que a natureza revelava e
imprimia subliminarmente. Se a inocência se caracterizava nos brinquedos de
bordão que construíamos, a lâmina afiada na pedra era a possibilidade de domar
o inexplicável, neste caso, a vida ou a morte, no mesmo rito que a cobra
engolia o passarinho indefeso em encantamento.
No meio de todos os fantasmas,
monstros e seres indescritíveis que a imaginação produzia, sentíamos
sobremaneira a poesia da crueldade como sublimação das sensações. O
subconsciente, transfigurado no medo ao relâmpago, por exemplo, era algo que
não nos cabia entender, vinha dos primórdios do gesto humano. Em termos reais
era-nos tão estranho quanto o haveria de ser para o sardão ao lhe ser cortada a
cabeça. Deste modo, arremessávamos na balança da vida o contraponto dos valores,
permitindo o seguir do curso natural de um rio ora mais fundo, ora mais raso,
em queda, tormentoso ou sereno, conforme se afunilasse ou espraiasse. Se nosso
crescer fosse suas margens, restava-nos aprender efectivamente se era o rio que
as fazia, ou elas que o controlavam, que ditavam a personalidade da sua fluidez
e caminhos.
Só mais tarde, muitos anos mais tarde,
por paciência ou por imbecilidade, encontramos algumas das respostas que,
quiçá, nos tranquilizem o suficiente para justificarmos o instinto, a
agressividade do animal ainda tão perto da caverna há pouco abandonada. Na
essência, os grunhidos continuam a sê-lo, mesmo se revestidos de suposta
transcendência em relação ao primeiro momento do seu significado e propósito.
Pouco nos separa das vibrações animalejas, dos medos naturais e primordiais,
por muito seguros que nos vejamos nos caminhos já trilháveis da divinização
humana, esboçando um pretenso entendimento do cosmos, enfim, daquilo do que
para lá resta infindável. Continuaremos a grunhir, como grunhiu o primeiro, até
ao dia em que arrogantemente se tente subjugar por completo a Natureza,
pensando que suas leis, por mais domadas que estejam, sejam conquista da
ciência sobre a metafísica, conquista do racional sobre o medo. E aí, ela se vingará
da arrogância e da premeditação, e forçar-nos-á a olhar novamente para o umbigo
com a humildade de quem redescobriu que é parte intrínseca e inalienável dela.
Por isso, para nós, o perigo estava no
silêncio do mato porque um qualquer kifumbe nos poderia salta à frente no
cafezal ou no bananal, coito das surucucus.
O silêncio ensurdecedor do mato é a
mais terrível das sensações. Cortar a cabeça aos sardões era tão banal quanto
chamar ao José Silva, Zeca Canivete. Em ambas as atitudes, havia uma evidente
falta de imaginação, um seguir natural da acção, como a noite a seguir o dia. O
resto, era abstracção. Eram os corpos dos sardões a retornar à decomposição,
pelo nosso prazer infantil.
Nunca poderíamos, então, pensar ou
julgar que, o atravessar do bananal medonho, os medos que sentíamos ao prever a
aparição do kifumbe, seriam os mesmos ou mais profundos, ainda que conscientes,
que o sardão sentiria ao ser caçado e agarrado e depois decapitado. Tanto nós
quanto os sardões, perante este enigma e dilema comuns, fugíamos aterrados
pelas picadas da selva, pois não tínhamos conhecimentos para saber que a
Natureza, Deus, é um acto e uma criação do Medo, um gesto humano que nos leva a
concentramo-nos sobre nós mesmos e nossa irrelevância universal, na busca
perene do Equilíbrio.
E foi, quem sabe, por esses códigos
naturais e imutáveis da Justiça, que Zeca Canivete, anos mais tarde, tornou-se
padre e enlouqueceu numa prisão.
Teria ele uns dez anos quando o pároco
da missão católica, a muito custo, conseguiu convencer a família a deixá-lo
entrar para o seminário. A nossa perda foi incomensurável. Perdemos o irmão, um
pedaço que se esvaía, um sopro a menos em nossas vidas. Quando tivemos a
certeza de que ele partiria para sempre, apanhamos tantos sardões quanto
possível e purgamos nossa frustração no ritual agora da orfandade precipitada.
Numa manhã de cacimbo vimo-lo subir
para a carroçaria da carrinha do roceiro, rumo a Vila Salazar, onde apanharia o
comboio para Luanda. Pela primeira vez, soubemos o que era o significado do
sonho desfeito, afinal a vida tinha regras que não se compadeciam com o
desordenado ritmar dos nossos corações imberbes. Nessa mesma noite sofri
pesadelos terríveis, onde aparecia no meio de centenas de campas à berma da
estrada, com um sardão em contorcionada agonia, encimando cada uma delas. E de
longe, muito longe, em som diáfano, ouvi o riso de escárnio de Zeca Canivete,
repercutindo pela floresta em cada árvore. Tive então a certeza de o amigo
dilecto nunca mais voltaria, era o castigo personificado, as forças do mal
desceriam sobre nós. Os sonhos, revelou-nos o mestre adivinho que consultamos,
mostrava que corríamos perigo se continuássemos a cortar as cabeças dos
sardões, também filhos da Natureza, portanto, da vida e de Deus. Os animais
faziam parte da nossa vida no Mundo. Quando se sacrificava um galo ou um
cabrito, mesmo um cão, para satisfazer a ira de um qualquer espírito zangado,
era um gesto natural permitido. Todavia, sacrificar animais só pelo prazer de
olhar para a morte sacolejando no corpo do bicho, poderia ser maléfico, no meio
de muitos desses sardões, uns seriam conselheiros de Kalunga. Ele, o mestre,
ainda na véspera ouvira uma galinha a tentar imitar um galo, deveríamos parar
imediatamente com essas práticas, a partida do nosso amigo era um sinal claro
do desagrado do mundo espiritual.
Perdemos o que nos restara da
inocência, ao entrarmos no mundo invisível. O medo ao castigo desconhecido,
passara a estar ali atrás de qualquer árvore.
No domingo, após a missa na missão,
dirigimo-nos para o açude que existia na roça de um dos fazendeiros, laço
encarnado amarrado no tornozelo, conforme instruções do mestre curandeiro, e
lavamos a pemba encarnada que nos fora colocada pelo corpo. Não poderíamos ser
apanhados assim publicamente, e juramos que se alguma vez o Zeca Canivete
voltasse à aldeia, haveríamos de o denunciar como feiticeiro perigoso.
Mal sabíamos que José da Silva, anos
mais tarde, seria efectivamente padre e um dos nomes na luta de libertação
nacional. Acabou por ser desterrado para um campo de concentração onde, à força
de questionar Deus sobre Suas estranhas maneiras de agir, veio-lhe
repentinamente à mente a carnificina contra os sardões e, entendendo pela
geometria do oposto o que questionava e o que fizera, percebeu a inutilidade da
Consciência.
Nessa partícula do momento,
enlouqueceu para todo o sempre. Viveu o resto da pouca vida que lhe coube
amarrado, porque por duas vezes tentara cortar o seu próprio pescoço.
Fragata de Morais In “A Seiva – Contos
Angolanos”, INALD
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Livro publicado pelo INALD
BATUQUE MUKONGO
17
Chegada a hora parti
do verde Cazengo
subi os morros do futuro
ja longe do meu quarto onde as
manhãs
suplicavam nos dentes do meu avô
e reconstruiam o viveiro dos
pássaros
as casas toscas dos macacos
o cantarolar de minha mãe
sobrepondo-se ao longínquo ruido
das máquinas do café junto ao
secador
onde os meus pés
eram repasto das matacanhas
almoço dos mauindo
jantar das ovitakaia
naquela doce dor do coça-coça
que só acabava com o perfurar do
saco
pela agulha mestra na mão de
minha mãe
da lavadeira
ou qualquer outra mais velha
que me xingava
com longos muxoxos
a cheirar a tabaco
filho do branco com matacanh’ééé
não tem vegonha não tem
vergonh’ééé
o mona yá mundele
naõ tem matacanha uevu
não podia ser africano
africano branco não existia
muito menos branco africano
branco africano não existia
pouca terra pouca terra
pouca terra
para uma longa guerra fera
sentiam que branco africano
era de pouca sobra
era filho da cobra
sem espaço nessa obra
mas estes tinham um braço negro
e pouca terra pouca terra
não mais foi quimera
desceram o rio
subiram a serra
sentiram frio
conheceram o medo
aprenderam feitiços
conheceram chirangas
envolveram-se de missangas
e artes de fechar o corpo
para nunca ser morto
pelos poros abertos
penetrou na mente
a frescura da nova semente
a nova África na forja
mão negra na mao branca
no coração de Angola
na luta pela mesma mãe
feita de terra vermelha
de onde saía trémulo o salalé
logo jinguna
de onde caiam das árvores
as larvas aleitadas
em katatu transfomadas
tudo eles beberam
tudo eles comeram
chupados os ossos
arrotado o marufu
lambidos os dedos
vencidos os medos
andaram por todos os caminhos
mão de branco na mão negra
abriram sulcos perenes
na terra esventrada
no zunir sibilante da bala
inimiga
no vup vup vup das pás circulantes
dos helicópteros traiçoeiros
vup vup vup para a morte
vup vup vup para a vida
vup vup vup para os sem sorte
chamados para outro norte
vup vup vup asas de metal
enchidos de balas os corpos dos
feridos
o medo estampado no esgar
do soldado que mal compreendia
porque matava em terra alheia
gente que mal não lhe fizera
e os olhos vitros dos mortos
colados perdidos no caleidoscópio
das pás girantes das aves
metálicas
vup vup vup
desafiando o tempo
pelo fio dos anos
a reinventarem a História
olhares dos antepassados
chamados pelo batuque
do colono vup vup vup
em pás girantes
nas sombras da noite africana
nos caminhos dos pirilampos
acende-apaga
acende-apaga
almas errantes dos que morrerm
longe do umbigo
de todos os umbigos da bela
pátria anunciada
numa estrela de amarelo brilhante
em bandeira negro-rubra feita
pátria
tecida com fiapos de dor
amor e esplendor
sangue escorrido
nos trilhos cambaleantes
onde irmãos se perderam
peões dum mundo alheio
nem preto nem branco
degladiando-se pelo ovo por
nascer
defendendo visões não suas
com o abismo sempre a crescer
cavado pelo odor do petróleo
ofuscado pelo brilho dos
diamantes
África órfã de mãe
África apagada no horizonte do
sofrimento
empurrada para ravinas profundas
ravina capitalista
ravina marxista
ravina leninista
rasgando teus seios mãe África
de chirangas brancos
tocando chingufos africanos
escavando de tuas entranhas
minérios de ti incógnitos
África pouca terra
pouca terra pouca terra pouca
terra
INKUNA MINHA TERRA - CONTOS
AMORES
Uma brusca lufada de ar quebrou uma asa à gaivota,
lançando-a para o gelo do canal, onde ficou volteando, atordoada. Vários
transeuntes junto à ponte buscavam vias de a salvar, todavia a T fustigava as
ruas de Amesterdão. Ruas estreitas, calcetadas e escorregadias, ladeando os
canais ora gelados, impedindo a navegação das pequenas embarcações que os
utilizavam. Às largas barcaças, sobrava o rio Amstel, pontilhado de blocos de
gelo quebrado.
No conforto ameno da residência, uma
pequena cave de dois quartos na Prinsengracht,
Lito Boal lia uma revista cinéfila, quando a campainha da porta ressoou
com insistência. Apressou-se a abrir, pois sabia que nevava e estava frio. Para
seu agrado, viu Samu Lenga entrar, exsudando alegria. Abraçaram-se mesmo antes
do amigo retirar as luvas, o cachecol e o pesado casaco que o protegiam.
“De onde vens?”, perguntou Lito Boal feliz
de rever Samu.
“Acabei de chegar de Estocolmo. E contigo,
como vão as coisas?”
Samu Lenga, na casa dos trinta, o rosto
meio tapado por uma espessa e escura barba que tipificava o guerrilheiro, era o
retrato do quadro dinâmico que fizera vários anos nas diversas frentes da luta
contra o colonialismo português. Pela integridade moral e política, pelo
multifacetado trabalho desenvolvido nas diversas frentes e pelo domínio de
vários idiomas, fora agraciado com o novo posto. A luta emancipalista entrara
em fase mais desenvolvida e dinâmica, e tornava-se necessário alguém do seu
porte, a nível dos países europeus. A Suécia reconhecia e apoiava directamente
vários movimentos africanos, permitindo deste modo a instalação de uma
delegação que cobria os países nórdicos.
Lito Boal conhecera Samu Lenga ao ser
instruído pela direcção do movimento para se aí se apresentar. Uma forte
amizade os uniu de imediato.
Por fim sentados, e com uma chávena de
chocolate quente nas mãos, a conversa voltou-se inevitavelmente para Inkuna, a
luta libertadora e últimos desenvolvimentos. Depois das questões de maior interesse
e mais imediatas terem sido abordadas, Samu tirou dum envelope castanho grande,
um maço de fotografias recentes e mostrou-as ao amigo.
Singularizavam
momentos da vida dos guerrilheiros, nas matas. Ao olhar para uma delas, o
coração de Lito Boal quase parou de bater. Numa clareira rodeada de pequenas
árvores, um grupo de guerrilheiros repousava distraído, excepto uma jovem que,
de costas, voltara a cabeça como se chamada naquele instante. Sua boca
semiaberta, os olhos grandes e vivos como a luz do sol, emanavam toda uma
beleza e tranquilidade que contrastavam com a metralhadora pousada no colo. A
imagem produzia um efeito forte. Talvez pela carga emocional da fotografia, que
no fundo condensava toda uma aspiração pessoal, Lito Boal apaixonou-se naquele
momento.
“Meu Deus, Samu, quem é esta miúda? Que
coisa mais linda!”, perguntou exultante
“É a Dalila. Para além de ter sido seu
instrutor, por coincidência até tirei a fotografia. Tínhamos acabado de
regressar de um ataque a um posto português”, informou.
“Que maravilha! Posso escrever-lhe?”
“Se o fizeres brevemente, ainda és capaz de
a apanhar em Dar-Es-Salaam onde de momento aguarda a ida para Leningrado. Vai
estudar na União Soviética”.
Na manhã seguinte, foi um dos primeiros
gestos seus. Sentou-se e redigiu uma carta a Dalila, na qual mencionava que
vira a sua fotografia quando Samu Lenga o visitara, e que se quedara bastante
impressionado com o que o retracto transmitia. Estava de momento a estudar
cinema na Holanda, e dentro de mais três anos, uma vez terminada a Academia,
iria apresentar-se em Dar. Caso fosse possível, tentaria visitá-la um dia em
Leninegrado. Entretanto, ser-lhe-ia muito grato corresponderem-se.
Durante meses viveu na esperança de uma
resposta, de uma aceitação que lhe permitisse encetar uma amizade, embora que à
distância. Pensou escrever uma segunda carta, só não o fazendo, por duvidar do
paradeiro de Dalila. Quando já interiorizara que gesto fora uma infantilidade,
eis que chega um subscrito da União Soviética. Sobressaltou-se de ansiedade, só
poderia ser a resposta. E de facto assim o era. Dalila informava-o da surpresa
que tivera, nunca houvera recebido carta de ninguém, muito menos da Europa ou
da Holanda, lugares que só ouvira falar nas notícias. Que tivera problemas com
os camaradas da segurança do movimento, mas logo se tranquilizaram quando
mandou o chefe abrir o envelope e ler, para todos, o que lá estava escrito. À
parte disso, que teria grande alegria em escrever-lhe, e prometia que
responderia a todas as cartas que dele recebesse. Com a missiva, enviara uma
fotografia pequena, a cores.
Ao longo de dois anos mantiveram a
correspondência, como namorados que o destino separa contra suas vontades. Sem
se conhecerem, foram entregando retalhos de suas vidas um ao outro, moldando um
sonho que os uniria talvez um dia nas matas de Inkuna. Lito Boal ainda tentou
deslocar-se a Leninegrado, todavia a pequena bolsa de refugiado não permitia
pagar os 50 dólares diários, que as autoridades soviéticas exigiam aos
estrangeiros.
Mais dois anos decorreram até que
finalmente se conheceram no Palácio do Povo, em Katola, quando o presidente da
república, e comandante-em-chefe das forças armadas, impunha as primeiras
patentes aos seus antigos comandantes, agora oficiais superiores de um exército
nacional. Através do visor da máquina de filmar, Lito Boal descobriu o rosto de
Dalila ao lado de um dos antigos comandantes de coluna. Eufórico dirigiu-se a
ela, que de imediato o reconheceu. Abraçaram-se, no amplexo de quatro anos de
amizade platónica.
Samu Lenga que tudo observara, sorriu ao
virar-se para receber o abraço de um antigo companheiro de luta.
Dalila e Lito Boal recolheram para um
canto e falaram. Do momento que se vivia, da pátria livre, do sonho realizado
e, por fim, de como ele gostaria que se vissem.
De longe, o comandante ao lado de quem
Dalila estivera, observava-os com curiosidade.
Dalila afagou-lhe o rosto, beijou-o na
face e disse que gostava muito dele, mas que tinha homem, era aquele comandante
que ele vira a seu lado, e apontou, o que fez o mesmo desviar rápido o olhar.
Enfatizou que a amizade carinhosa deles, mantida por carta, era uma chama que
primeiramente a envaidecera, e que mais tarde se tornara numa afeição real e
sincera, algo muito especial e íntimo, mas que nunca poderia ter sido mais do
que fora, por não se conhecerem no fundo. Quando na União Soviética, a vida
continuara, não parara na beleza do gesto dele, nem na necessidade dela de
afecto e carinho, sobretudo porque tão longe da pátria e em país tão diferente.
Muitos dos seus companheiros de guerrilha estudaram com ela, daí a ligação que,
mais tarde, acabou por estabelecer com o comandante seu homem.
Lito Boal viu o devaneio antigo fenecer,
confirmando que os rumos da vida e aqueles do sonho, raramente convergem.
Propôs-lhe que se mantivessem amigos, e quando por fim arranjou mulher, Dalila
tornou-se achegada da casa e da família que começou a ser construída.
Porém, nunca pararam de se escrever. Coisa
só deles conhecida, comparsas num segredo. O desejo de perpetrarem, ou melhor,
de não abandonarem o elo que sempre os unira num sentimento de cumplicidade,
levou-os, sem que nenhum o tivesse mencionado, a tocarem-se daquela forma. De
vez em quando, um recebia um bilhetinho, uma nota, do outro. Não se poderiam
negar por completo, sempre quedava a nostalgia que todos os passados consigo
carregam.
Os anos passaram, Dalila perdeu o esposo,
tornou a casar, alargou a família e, quinze anos mais tarde divorciou-se do
marido.
Lito Boal, por sua vez, ao fim de vinte
anos de união, separou-se da mulher.
Livres, não ousaram admitir que o rio
secara e, frustrados, intimamente desiludidos com o destino, não desejaram
olhar para o que restara, as pedras nuas no fundo de um leito pouco profundo,
onde o casco de um amor que nunca merecera a confirmação de o ser, soçobrara,
por desígnios impenetráveis. Intuíam que se os fados assim o impuseram, seria
porque quem tece as teias da vida, não aquiesceu a que algum dia vivessem
juntos, sombras separadas e jamais tangentes, num céu insensível.
E, cada em seu canto, continuaram a
correspondência, por inconsciente vingança e amor-próprio, cientes de que o que
estava feito estava feito.
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